Coluna do Professor #390, por Albio Melchioretto (Futebol e cinema: a metáfora da vida como ela é)

Acompanhei um jogo de futebol no estádio depois de muito tempo. O primeiro após as restrições sanitárias de março de 2020, foi um jogo da Série C do Campeonato Catarinense. Havia uma centena de pessoas no estádio. Não vi pessoas com o velho rádio a pilha, mas havia muitos com smartphones. O jogo em campo para alguns era secundário, a tela mostrava-se mais atrativa e nem dava para contestar. Tentei ouvir a narração do jogo via YouTube, mas o delay me irritou. Abandonei a ideia logo em seguida. O que me fez questionar, qual o papel das várias mídias na divulgação do futebol?

Passamos pela era do rádio, as décadas douradas da TV aberta, a explosão da TV paga e hoje há a internet. Na multiplicidade, pouco se fala do cinema em relação ao futebol. Então, como o cinema nos ajuda a entender o universo do futebol?

Durante o jogo, recebi uma mensagem, via aplicativo, anunciando a 12ª edição do Cinefoot. Ele é um evento brasileiro com filmes de curta e longa metragem, animação e documentários sobre o universo do futebol. A edição teve filmes mostrados pelo aplicativo InnSaeiTV, que é uma plataforma especializada em festivais. Recomendo o uso para os cinéfilos.

No final de semana passado, entre 04 e 05 de dezembro, consegui ver alguns filmes do Cinefoot. O cinema é importante para pensar o futebol por um viés diferente daquele proposto no cotidiano (rádio, televisão e mesas-redondas). Pensa o futebol refletindo o cotidiano, ficcional ou não. Ao tomar como verdade que o cinema é arte e o futebol é arte, logo as duas linguagens que dialogam em perfeita harmonia. O cinema, na abordagem futebolística, ultrapassa a especulação massiva do cotidiano e aos interesses comerciais. Ele não se preocupa com quem renovará o contrato, o técnico demitido ou com a zona de rebaixamento. No cinema prepondera uma macrodiscussão sobre o futebol.

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@professoralbio

Dentro de todo universo do Cinefoot, quero destacar quatro curtas-metragens que provocaram e ecoaram durante a semana. Comentarei cada qual, individualmente:

(a) A culpa é do Neymar (Brasil, 2014). Um curta, estrelado pelo Babu Santana, antes da fama do BBB, onde ele representa um pai botafoguense que convive com um filho torcedor do Neymar. Ele mexe com a ilusão e a projeção do torcedor; com o torcedor de jogador e não de clube, põe em pauta o torcedor-seguidor. O curta foi vencedor do prêmio Cine Vitória, em 2015. Com ele questiona-se os critérios para a escolha do time do coração e as implicações do torcedor-seguidor e outras formas de paixão que o futebol desperta. Eu sou corinthiano por influência direta do meu pai, e você leitor, o que motivou a escolha do seu time de coração?

(b) Dois pés-esquerdos, ou melhor, Due piedi sinistri (Itália, 2015). Já havia visto ele no Youtube. Ele choca e faz chorar nos seus poucos minutos. Mexe com os preconceitos e o distanciamento humano quando visto com o olhar do adulto, mas quando visto com os olhos da criança, percebe-se que há um mundo e uma vida para além das diferenças. Naturalizamos formas e comportamentos inapropriados. Quando nos tornamos indiferentes com o outro?

(c) El Hinchia (Peru/México, 2018). Ele mostra a vida da periferia peruana, às vésperas da classificação heroica para Rússia-18. A idolatria e a figura do herói estão presentes no universo simbólico de uma criança. Nos leva a pensar como a elitização do futebol é ruim, ela priva o pobre do estádio, da televisão e dos produtos do time do coração. O futebol é um patrimônio cultural da humanidade (ainda não reconhecido) que hoje, sob a égide do capital, torna-se classista. No curta, o infante torcedor, que cuida da avó doente, e por ela é cuidado, acompanha a classificação do Peru pelos gritos dos vizinhos torcedores.

(d) Doah (Noroega/Marracos, 2020). O mais forte da lista. Uma menina marroquina, torcedora do Raja Casablanca (um salve para o campeão brasileiro Atlético Mineiro), convive apenas com a mãe, e esta por sinal, é garota de programa. Sofre preconceito pela doença de pele, pela vida de pobreza, pela solidão do bairro e ainda não entende a dinâmica da vida no qual a mãe está submetida. Uma menina que deseja jogar futebol com os vizinhos. Ela é rejeitada e violentada a pedradas. Se nossas mulheres têm dificuldade para praticar o futebol, imagem as mulheres do mundo árabe!

O cinema nos ajuda a entender o universo do futebol quando ele retrata o cotidiano além das especulações e das polêmicas da ordem massiva da indústria cultural. Mostra o futebol, não pasteurizado, para evidenciar as escolhas de um filho; as dificuldades de torcer na pobreza ou de se fazer novos amigos numa praça, ou ainda, quando denuncia todas as formas de preconceito. O cinema é arte porque lê o futebol como metáfora da vida.

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