FUTEBOL LARANJA
A Coluna do Professor é escrita a partir de Santa Catarina. Esta semana o estado sofreu com um “ciclone bomba” que comprometeu o sistema de comunicação e abastecimento de energia elétrica. Então, recolhido distante dos fatos de momento, atualizei as leituras pendentes, e uma delas foi uma reportagem do The Guardian sobre o uso da imagem da Premier League. Gosto da mídia escrita europeia, porque os textos são profundos e longos, bem diferencia fast-reading da mídia massiva latino-americana. Apropriei-me da leitura para pensar um pouco nossos problemas. Afinal de contas, aprendemos com Mikhail Bakthin que a leitura é sempre dialógica.
A agenda política de um clube de futebol e os processos de tomada de decisão sempre são posicionamentos de interesse. Não há imparcialidade. É como assistir a um jogo pela FlaTV e esperar um comentário imparcial, isso não existe, o que faz, o faz de acordo com uma intencionalidade. Dito isto, volto ao The Guardian que apresentou os problemas ligados ao Sportwashing.
É um termo em inglês, criado por organizações de direitos humanos que junta duas palavras, “sport” e “wash”. Ou seja, é o uso do esporte como forma de apagar ou lavar ações de governos, ou grupos transnacionais, não querem que sejam conhecidas pelo resto do mundo. O uso do esporte como uma cortina de fumaça. Na história, Copa Itália-1934 e a Olimpíada Berlim-1936 funcionaram como cortina aos movimentos totalitários pré-guerra. Recentemente Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos e China o fazem. Mas o que dizer do ciclo de grandes eventos no Brasil iniciado com o Pan Rio-2007 até a Olimpíada Rio-2016? Ou ainda, o futebol em plena COVID19? O que toda propaganda gerada pelo esporte esconde?
É possível afirmar que todo o imbróglio pelos direitos de transmissão vividos nas últimas semanas também esconde, ou lavem, situações que mereçam um certo tipo de cuidado na análise. Não é uma discussão de mocinhos e bandidos, se é que há mocinhos. Por exemplo, como está a investigação das mortes no Ninho do Urubu? E as diversas denúncias de manipulação de resultados nas divisões menores ou ainda, das vendas estranhas que dominam as categorias de base? É evidente o imbróglio com a TV não tem relação direta com os fatos, mas enquanto se fala de A, esconde-se os problemas B, C, D… e aí?
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| Albio Melchioretto albio.melchioretto@gmail.com @professoralbio |
A reportagem do The Guardian menciona o interesse árabe na compra do Newcastle. A Arábia Saudita através do projeto “Visão 2030” pretende traçar um plano de marketing para melhorar a imagem do país. Porém, não vemos ações efetivas que superem a violação dos direitos humanos, a cessação da perseguição política, a aplicação da pena de morte em alta escala e prisões arbitrárias de ativistas políticos. Tudo isso está lá no mesmo momento que se comemorar um gol. Como aqui, se comemora um gol, quando dezenas de milhares já perderam a vida.
A mídia esportiva se fecha em torno de uma bolha. Discute e repercute o que acontece dentro de campo, no máximo pincela uma decisão ou outra extracampo em reportagens especiais. Mas se esquece que o esporte, de modo particular nesta análise o futebol, é um conjunto de interesses e intenções fundamentalistas. O esporte é uma grande vitrine, mas qual a origem do dinheiro de quem paga?
Sugestão de leitura:
RIBEIRO JR., Amaury; CIPOLONI, Leandro; AZENHA, Luiz Carlos; et al. O lado sujo do futebol: a trama de propinas, negociatas e traições que abalou o esporte mais popular do mundo. São Paulo: Planeta, 2014.
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Henrique Neves é antropólogo por formação, mas esportista por natureza. Apaixonado por vôlei, aprendeu a jogar ainda pequeno. Escreve sobre esportes e ama praticar esportes radicais. É formado em Comunicação pela PUC-Rio. Fã de Vinicius Jr, torce pelo Flamengo.

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