APITO INIMIGO E NARRAÇÃO FRATERNAL
Muitas vezes acompanho futebol pela televisão apenas de ouvido. Deixo a TV ligada e fico trabalhando frente a tela do computador. Seria mais produtivo, acredito, fazer isto ouvindo rádio. Mas, manias são manias. Descrevo-a para contextualizar a narração do Milton Leite, pela Copa do Brasil, no jogo Palmeiras versus Internacional, nos canais Sportv e Premiere. Não vi o jogo, apenas ouvi o narrador. Por diversas reclamando das atitudes dos jogadores.
“Os jogadores não sabem as regras”. “Como esses jogadores reclamam”. “Perdemos mais de dois minutos para cobrar uma falta”. São três exemplos de frases ditas pelo narrador ao longo do jogo. As primeiras vezes me incomodaram. Pensei eu, como pode o narrador focar nisso. Com o passar do jogo dei certo crédito as reclamações. Um jogo, onde a ênfase deixa de ser a bola para estar no apito, é chato demais. E este enunciado, dos jogadores que “embaçam” um jogo, precisa ser evidenciado. Caso contrário, será normalizado a atitude patética. Diga-se ainda, atitude que não vemos em competições europeias. Lembram as vaias da torcida inglesa, na Olimpíada de Londres para Martha e Neymar?
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| Albio Melchioretto albio.melchioretto@gmail.com @professoralbio |
Alguém poderia perguntar, qual a relação das atitudes dos jogadores com a coluna? Ela tem relação com aquilo que falávamos no último texto. Qual é o papel de cada um no espetáculo? A mídia (sim, “o vocês da imprensa”), por vezes, transforma jogadores em divindades, ou comentam com intenção de proteção e promoção, ou pior, focalizam críticas para denegria. Ou ainda como diria Mauro César Pereira, “tem o clube do vinho” que se fecha em torno de alguns nomes.
Agora tentarei amarrar, todas essas ideias. Quando a mídia esportiva visualiza os erros de gramados, e por interesse corporativo se cala, ela naturaliza algo que não é aceitável. A ausência de crítica favorece ao desmanche do bom futebol. As reclamações de Milton Leite não podem ser apenas dele. Precisamos endossar que as competições no Brasil extrapolam o limite do aceitável na relação com o apito em campo. Mas as críticas a este comportamento já estão naturalizados e poucas são as vozes que combatem algo que denigre o espetáculo.
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Henrique Neves é antropólogo por formação, mas esportista por natureza. Apaixonado por vôlei, aprendeu a jogar ainda pequeno. Escreve sobre esportes e ama praticar esportes radicais. É formado em Comunicação pela PUC-Rio. Fã de Vinicius Jr, torce pelo Flamengo.

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