Semanas antes da copa, registrei, aqui e em outro veículo a ausência de clima de copa pelas ruas das cidades. Falo a partir do Santa Catarina, da Região do Vale do Itajaí. Espaço por onde circulei no último mês. Na ocasião acreditei que o início da competição pudesse mudar. Ledo engano. Escrevo este texto assistindo ao segundo jogo do Brasil. E me questiono do motivo da ausência de euforia de outrora. E vejo que aqui uma cartografia é possível. Vários fatores podemos pensar.
PRIMEIRO. Por melhor que Tite fez nas eliminatórias, pós desastres de Dunga, o 7×1 ainda é um trauma. O maior vexame da história das copas de todas as seleções. Uma goleada em casa numa semifinal, e o perder ostenta até agora, cinco títulos mundial. Por si só o fato já é causador de muitas dúvidas por anos e anos. O descrédito não está numa apresentação em campo apenas, mas numa forma de pensar a estrutura do futebol. Após a tragédia do Mineirão o que se fez pelo futebol brasileiro?
SEGUNDO. As Manifestações de Junho de 2013 tiveram como uniforme a camisa da seleção. É fato a associação da amarelinha a um movimento contra a corrupção (será?). Qual o resultado disso tudo? Apenas alguns presos e uma política elitista que a poucos interessa e que faz as conquistas sociais de outrora recuarem. Então a associação da amarelinha com o fracasso político somado a desesperança pode ser um bom argumento.
TERCEIRO. O torcedor urso. Não falo do perfil satírico do Twitter, mas do torcedor que hiberna durante quatro anos e volta só agora. Mas a volta dele é complicada. Ele grita sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor, mas do que ele mesmo se orgulha? Não consome futebol, é indiferente a tudo e apenas vibra com cobrança de lateral e pouco agrega.
QUARTO. O eurocentrismo da seleção tem distanciado a torcida. Um torcedor urso não faz ideia que é Alisson, Danilo, Fred (é o mesmo da copa passada?) e alguns que nunca se firmaram aqui, só lá, na Europa. Os jogadores estão cada vez mais distantes dos torneios domésticos e o sucesso deles e o dia a dia não é uma informação consumida pelos ursos brasileiros.
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| Albio Melchioretto albio.melchioretto@gmail.com @amelchioretto |
QUINTO. A seleção joga muito pouco aqui. Além das eliminatórias, qual foi o último amistoso disputado aqui? A seleção passou uma semana a mais dias treinando em Teresópolis, e nem um amistoso pré-copa tivemos a chance de ver… o distanciamento causa o esfriamento de uma relação que não é boa. Não seria difícil acertar um jogo no Maracanã antes dos dois amistosos da Europa.
SEXTO. A mediocridade dos grandes grupos de comunicação. Passam horas e horas discutido a queda de Neymar, o cabelo de Neymar, as mídias sociais do Neymar, o comentário do pai de Neymar… o mundo está chato para caramba. Se os grupos que dominam a informação preocupados em fazer o factual com responsabilidade social, talvez, e só talvez, pudéssemos ter uma reflexão mais apurada do esvaziamento do clima de copa.
SÉTIMO. Sobre a instituição FIFA WORLD CUP pairam dúvidas. Eleições fraudas na escolha dos países sede, construção de elefantes brancos, ausência de um legado real do pós-copa e todas as denúncias de corrupção que vemos.
Se são tantos os motivos, porque alguns de nós ainda insistem? PRIMEIRO E ÚNICO: somos apaixonados pelo futebol.
E você leitor, porque acompanha a copa?
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Henrique Neves é antropólogo por formação, mas esportista por natureza. Apaixonado por vôlei, aprendeu a jogar ainda pequeno. Escreve sobre esportes e ama praticar esportes radicais. É formado em Comunicação pela PUC-Rio. Fã de Vinicius Jr, torce pelo Flamengo.

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